Sobre ter filhos
Carta Um: Filho Não
Filho, você não existe.
Para existir, precisa de mim.
E fatores impedem essa transição.
O primeiro é a vida.
Você não sabe, mas a vida é dura demais.
Ela pode te estraçalhar em milhões.
À primeira vista, parece utópico dizer que a vida é cruel,
mas certamente isso vai acontecer inúmeras vezes se você existir aqui.
Claro, a vida é bonita de várias formas; existem alegrias,
felicidades exorbitantes.
Contudo, seu teor é caos, é dor, é morte.
De certo, te amo mais que muitas mulheres inconsequentes e
suas crias, mesmo não gerando você.
Alem do mais, vale dizer que o mundo está cheio de gente, de várias
espécies, de vários tipos, e não existe nenhum motivo que possa fazer sua
existência necessária a ele.
Trazê-lo em vida, demonstrará o quão egoísta sou, já que você é importante somente pra mim.
Também tem o medo da repetição.
Não tive bons pais, minha mãe era um carrasco.
Posso te colocar numa fria. E se eu for como minha mãe?
Sei o quanto é miserável essa condição.
Acredite, por mais carrascos que meus pais tenham sido,
sempre os honrei.
Mas esse texto não é para falar de mim, nem o que me custa
honrar meus pais.
Esse texto é para falar de um filho tão amado a ponto de não
ser gerado, portanto.


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